Ajuruteua

Ajuruteua

quarta-feira, 24 de março de 2010

O DIGNO E O HONRADO




Em homenagem aos raros e nobres humanos que ainda merecem estes dois adjetivos nos dias de hoje.



O DIGNO E O HONRADO

A vivenda dos Guedes à beira do Rio Maratauíra, afluente do Tocantins no nordeste do Pará, era o ponto de encontro dos ribeirinhos. Por possuir o maior atracadouro da região e também servir como entreposto comercial no cais, com exceção aos domingos, o vende e troca de mercadorias era intenso bem lembrando o Ver-o-Peso, a maior feira de Belém.
De longe se avistava a casa grande com seu telhado antigo, paredes azuis, um terreiro limpo e árvores muitas dando um ar pitoresco ao lugar.

João Guedes, o português sisudo, azeitoneiro do sul de Portugal que no final do século XIX viera tentar a sorte por aqui junto com outros patrícios, desembarca em Belém, mas prefere subir o rio seguindo o conselho de um padre capucho, Pe Alfredo, que conhecera na longa viagem de navio.
Em Abaeté, hoje Abaetetuba município ribeirinho, distante uns 80 km da capital, o português decidiu investir seu dinheiro e seu suor. E deu certo, com alguns poucos anos de dedicação e muita mão de obra conseguiu comprar um engenho de cana-de-açúcar aonde além de beneficiar a cana ainda fabricava seus derivados como a cachaça, o açúcar, a rapadura e o mel.

Na casa grande Dona Ana, a portuguesa que acompanhara o marido na bem sucedida aventura, administrava o dia a dia de uma dezena de empregados e dos filhos Boanerges e Pedro que estudavam em Belém, só vindo aos finais de semana para a vivenda e de Clara, a caçula que aos dezesseis anos passava os dias aprendendo a costurar, bordar e cozinhar para se tornar uma boa esposa só indo ao terreiro e ao cais aos domingos quando estivesse vazio, afinal era uma moça de família.

Numa tarde de junho quando o céu e o rio coravam diante de um magnífico por de sol, Clara e sua dama de companhia corriam pelo terreiro alegremente até que no cais, Clara sentou-se e pôs-se a admirar o infinito. Seu olhar parecia esperar a lua já que o sol se despedia.
“Boa tarde, senhorita”
Era Jerônimo, um caboclo forte de pele queimada, filho da terra que plantava e vendia cana-de-açúcar para os engenhos. Ouvira falar da beleza de Clara, a jovem da vivenda dos Guedes e planejara uma estratégica abordagem para conhecê-la.
“Que queres aqui?”
Grita Boanerges já de rifle na mão. A gritaria já atraíra a todos para o terreiro. Calmamente virando-se para João Guedes, Jerônimo, responde num tom de voz que pôde ser ouvido por todos os presentes:
”Vim pedir a mão de sua filha em casamento”. A audácia do caboclo pegara o português de surpresa que de chofre replicou: ”Será sua se daqui a doze meses tiveres um engenho e um palácio para minha filha” E, virando-lhe as costas entrou na vivenda dando por encerrada a conversa.

Nem mesmo João Guedes acreditara no que dissera; “Mas quando? Aquele borra botas jamais conseguiria em um ano o que ele em meia vida acumulara e nunca mais tocariam no assunto"
Enganara-se o português. Na primeira semana de junho do ano seguinte Jerônimo, acompanhado do pai, muito ansioso e feliz lhe trouxe alguns documentos comprovando a compra do engenho Rio Grande, o maior da Região e da casa mais bonita da cidade, consolidando assim o noivado.

Clara e Jerônimo se casaram na Igreja Matriz em dezembro de 1900 numa linda cerimônia celebrada por Pe Alfredo e toda a cidade de Abaeté esteve presente.
Foram muito felizes, tiveram doze filhos e até hoje, por lá, se comenta a história da dignidade de Jerônimo que trabalhou duro para poder casar com a jovem Clara em um tempo tão curto e da honradez de João Guedes que para manter sua palavra abriu mão de seu bem mais precioso, a filha.

Dignidade e honradez duas qualidadeS que talvez nem mais existam neste mundo.

LÍGIA SAAVEDRA


.

2 comentários:

  1. Há tantas coisas que estão se perdendo...mas o que me alegra é saber que ainda há um seleto grupo de seres humanos que levam a sério esses dois adjetivos!
    Beijos minha linda!

    ResponderExcluir
  2. É verdade, querida!
    Muito poucos mesmo.

    Bj

    ResponderExcluir

COPIE E LEVE COM VOCÊ O NOSSO BLOG E A COR DO AÇAÍ.

BannerFans.com

Recado

Paixaoeamor.com